ELENCO: Kristanna Loken, David O’Hara, Noah Danby, Billy Zane
Alemanha/Sudão, 2009 (98 min)
Assim como acontece em outras partes da África, tribos rivais disputam poder e território. Para que fique claro quem é que manda, mais fácil dizimar o inimigo. No caso de Darfur, os rebeldes dessa região, de imensa maioria negra e muçulmana, lutavam pela separação do território, cujos habitantes vivem basicamente de agricultura de subsistência, pecuária e atividade nômade. Obviamente o governo central nega a independência e reage com extrema violência. Com o apoio de milícias da etnia janjaweed, também muçulmana, porém de origem árabe, o objetivo seria dizimar os compatriotas negros de Darfur como parte da estratégia de resolução do problema.
Para contar essa história, o filme fala de uma grupo de jornalistas ocidentais, que vão a Darfur registrar o genocídio. Com escolta das forças de paz da União Africana, visitam uma tribo que já tem marcas profundas de violência, que já sofreu com a morte de parentes, com a perda de garotos convocados pela milicias para serem “soldados”, com estupros e outras formas brutais de violência. Toda a questão gira em torno da chegada repentina dos milicianos janjaweed na tribo e da permanência ou não dos jornalistas por lá. Ficar ali inibiria atos de violência? Do que essa gente seria capaz?
Já disse e repito. Darfur não é um filme com roteiro e atuações dignos de nota. Mas conta uma história que deixou marcas profundas, campos de refugiados lotados, sem assistência, comida ou remédios, milhares de doentes com epidemias, inclusive com AIDS, e um país dilacerado e dominado por extrema violência. É isso que o filme mostra, registrando de forma explícita as barbaridades que acontecem nos dias de hoje. Bem debaixo do nosso nariz.
Hoje eu trago para vocês um filme de Moçambique, chamado "Terra Sonâmbula", baseado na obra do escritor Mia Couto. Aos 14 anos já possuía poesias publicadas em Moçambique, no Jornal Notícias da Beira. Mais tarde trabalhou no Tribuna, depois foi diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM). Em 1983, publicou o seu primeiro livro de poesia, Raiz de Orvalho, que inclui poemas contra a propaganda marxista militante. Dois anos depois, demitiu-se da posição de diretor para continuar os estudos universitários na área de biologia.
O filme que trago hoje foi baseado no livro de mesmo nome, Terra Sonâmbula cuja 1ª ed. é da editora Caminho em 1992; 8ª ed. em 2004. Ganhou o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995, sendo considerado por um juri na Feira Internacional do Zimbabwe como um dos doze melhores livros africanos do século XX.
Sinopse
Um ônibus incendiado em uma estrada poeirenta serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil devastadora que grassa por toda parte em Moçambique. Como se sabe, depois de dez anos de guerra anticolonial (1965- 1975), o país do sudeste africano viu-se às voltas com um longo e sangrento conflito interno que se estendeu de 1976 a 1992. O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os “cadernos de Kindzu”, o longo diário do morto em questão. A partir daí, duas histórias são narradas paralelamente: a viagem de Tuahir e Muidinga e, em flashback,o percurso de Kindzu em busca dos naparamas, guerreiros tradicionais, abençoados pelos feiticeiros, que são, aos olhos do garoto, a única esperança contra os senhores da guerra. "Terra Sonâmbula" – considerado por júri especial da Feira do Livro de Zimbabwe um dos doze melhores livros africanos do século XX e agora reeditado no Brasil pela Companhia das Letras – é um romance em abismo, escrito numa prosa poética que remete a Guimarães Rosa. Couto se vale também de recursos do realismo mágico e da arte narrativa tradicional africana para compor esta bela fábula.
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Crítica do Filme, de Teresa Prata
Ainda estava a iniciar os seus estudos de cinema em Berlim quando descobriu, num canto de uma livraria espanhola, Terra Sonâmbula, de Mia Couto. E envolveu-se tanto na sua leitura que teve vontade que «o livro não acabasse nunca». Teresa Prata pouco sabia na altura de argumento ou realização, mas imaginou os seus primeiros grandes planos. Não perdeu tempo e decidiu escrever logo à Caminho, editora do escritor moçambicano, pedindo autorização para fazer daquela história um filme. Levou tempo, mas uma dúzia de anos depois, aí está a sua Terra Sonâmbula. É a primeira longa-metragem da realizadora que antes assinou várias curtas.
Não faltaram a Teresa Prata as razões para querer filmar Terra Sonâmbula. A começar pela «profundidade» da história: «Toca todos os pontos essenciais, vida, morte, sobrevivência, amor». Mas também a sua «originalidade». E a universalidade do que é contado. «É uma história africana, fala-se de Moçambique, mas uma guerra é sempre uma guerra. Por outro lado, no filme não há só uma criança à procura dos pais, mas também uma criança a crescer, o que é universal».
Pesou também por certo o facto de Teresa Prata ter vivido a sua infância em Moçambique, de onde saiu em 1975, com oito anos. Mudou-se então para o Brasil e mais tarde veio para Coimbra, onde se licenciou em Biologia, integrando também o elenco do CITAC, durante seis anos. Do teatro passou ao cinema, já que desde criança que gostava de contar histórias e percebeu que melhor o faria atrás de uma câmara do que em palco como actriz. Só voltou a Moçambique para rodar Terra Sonâmbula e teve na equipa muitas pessoas que tinham vivido a guerra e perdido toda a família. «Perguntavam-me por que queria fazer este filme», recorda. «E eu respondia-lhes que o ia utilizar como se fosse uma lente para verem a guerra e a sua realidade com um pouco mais de poesia».
Mia Couto, que em Junho vai publicar um novo romance intitulado Venenos de Deus, Remédios do Diabo, com a chancela da Caminho, não deixa de confessar que um escritor ainda que de uma maneira «ocultada» tem sempre a «esperança de rever» o que escreveu noutra linguagem, quando os seus livros passam ao cinema. «A linguagem cinematográfica tem que ser divorciada e construída com toda a liberdade sobre a sugestão do livro. E quanto mais distante, melhor será o resultado», reconhece. «É portanto uma relação sempre difícil para o autor, porque por um lado está-se revendo no filme, mas sabe que já não é uma coisa sua. Como quem olha para um filho e já não reconhece aquela criança que parecia ser sua». No caso de Terra Sonâmbula adianta: «Sabendo que Teresa Prata teve poucos recursos em condições difíceis, produziu um trabalho honesto, limpo, digno». Mia Couto já teve algumas das suas histórias adaptadas ao cinema e ao teatro, nomeadamente em algumas curtas de realizadores moçambicanos e há outros projectos de longas-metragens. Mas o seu universo será tão aliciante quanto difícil de passar a outras linguagens. Há sempre o alto risco de se perder na passagem a riqueza da sua singularidade, o envolvimento mágico, o poder encantatório das suas narrativas. Requer, nessa medida, alguma escrupulosa coragem na adaptação ao cinema. Em Terra Sonâmbula, a cineasta encarou o «desafio do livro», sem nunca perder de vista a natureza distinta das duas linguagens, a literária e a cinematográfica. «Uma é para ser lida, a outra para ser vista», salienta. «Foi um trabalho feito com cuidado, pensado. Quis começar de uma forma realista e acabar de uma mais mágica e segui esse conceito também nos diálogos. Primeiro são mais duros e depois fui deixando alguns ‘diálogos puros’ do Mia Couto». E acrescenta: «O meu filme é a minha visão sobre o livro e retirei dele o que me interessava contar».E o que Teresa Prata quis contar foi a história da criança, Miudinga, e do velho Tuahir, seu companheiro na deambulação em busca da mãe, que acredita ser a mulher que espera o seu filho, num navio encalhado, como diz o diário que encontrou junto de um cadáver. «Só peguei num esqueleto narrativo», adianta. «Por exemplo no livro de Mia Couto as duas histórias nunca se encontram, mas em cinema se abro uma segunda linha de história tenho que as juntar. Por isso, criei um rio que não existe no livro». Ainda recorda a «alegria» sentida na cozinha do seu apartamento em Berlim, onde vive, quando teve a ideia desse rio, que fez desembocar num final com «alguma esperança». «Senti logo que era uma boa ideia», diz. Talvez tenha tido a certeza, quando as pessoas se levantaram numa explosão de, a bater palmas, no justo momento em que viram brotar esse rio, quando o filme foi exibido no Festival de Kerala, na Índia. Tem estreia comercial em Portugal marcada para 8 de Maio e a 30 em Moçambique.
Hoje eu trago para todos um curta-metragem do senegal chamado Deweneti.
Uma história comovente por se tratar de uma realidade que cerca inclusive nossas crianças brasileiras.
Um menino passa o dia pedindo dinheiro nas ruas do Senegal, prometendo a todos que iria rezar para que seus desejos se realizassem e assim conseguia a quantia que desejava.
O que acontece depois? Nesse terão que assistir, e garanto que não vão se arrepender. Para lhes dar mais curiosidade e vontade de assistir esse curta peço que imaginem neve caindo no senegal, conseguem? Pois é, a diretora Dyana Gaye nos surpreende com a sua visão.
Falando nisso quem é Dyana Gaye?
Ela tem 35 anos, é a autora da maior surpresa do Verão de cinema francês e, 2012: "Un Transport en commun", um musical "on the road" de 50 minutos nas estradas do Senegal. Estreou nas salas de cinema e vem conquistando os espectadores franceses. Ela nasceu na França e seus pais são senegalês.
Dyana Gaye
Para os fãs de cinema eu trago abaixo o curta para assistir via youtube, com legendas em inglês!